Endividamento avança com impulso do crédito consignado

O endividamento das famílias brasileiras segue em patamar elevado e vem sendo impulsionado por modalidades de crédito com desconto direto na fonte, como o consignado privado. 

Segundo pesquisa da CNC (Confederação Nacional do Comércio e Bens, Serviço e Turismo), cerca de 80,2% dos brasileiros estão endividados, enquanto aproximadamente 30% estão inadimplentes.


Este e outros assuntos da economia serão abordados no programa e na News da Resenha, newsletter para manter os investidores informados e ajudar na tomada de melhores decisões no mercado.

Para Thiago Godoy, apresentador da Resenha do Dinheiro, o cenário é resultado de uma combinação de fatores que refletem um histórico prolongado de endividamento da população brasileira.

“Além disso, a expansão do crédito consignado, especialmente após mudanças regulatórias e a ampliação de acesso a trabalhadores do setor privado, alterou o perfil das dívidas no país”, conta. 

Marilia Fontes, sócia-fundadora da Nord Investimentos, analisa que a lógica de substituição de dívidas mais caras, como o cartão de crédito, por linhas com juros menores, acabou abrindo espaço para um ciclo contínuo de contratação.
 

“Tudo começou com o cartão de crédito, quando as pessoas perceberam os juros mais altos. O consignado surgiu como uma alternativa mais barata, com desconto direto no salário. Em 2021, vieram outras medidas, como o saque-aniversário do FGTS. Hoje, quase 70% desse valor já está comprometido com antecipações”, afirma. 


Segundo ela, o modelo de crescimento baseado em crédito segue como um risco estrutural.

“O Brasil tem essa tendência de crescer via endividamento. É o que chamamos de ‘voo de galinha’, você cresce, depois vem a conta e parece que volta 10 casas em relação ao crescimento econômico”, conclui.


Impacto na Selic
Vale ressaltar que endividamento e inadimplência são conceitos diferentes, embora estejam relacionados. O primeiro indica a existência de dívidas; o segundo, a incapacidade de quitá-las.

“O endividamento pode ser administrável, mas o avanço da inadimplência é o que acende o alerta”, afirma Bernardo Pascowitch, fundador e CEO do Yubb.


Na prática, o avanço da inadimplência reflete um ambiente mais pressionado por juros elevados. Desde o ciclo iniciado em 2021, a taxa básica definida pelo Banco Central do Brasil, a Selic, tem impacto direto sobre o custo do crédito e a capacidade de pagamento das famílias.

“Quando a Selic sobe, a inadimplência tende a subir junto. O custo do crédito aumenta e o orçamento das famílias fica mais apertado”, diz Marilia. 

Pascowitch ainda pontua como o aumento da inadimplência impactam as provisões dos bancos: “Isso encare o crédito e o torna mais escasso".
 
Mariana Suzuki, CNN Brasil 
 
Editorial, 06.ABRIL.2026 | Postado em Mercado


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